segunda-feira, 15 de novembro de 2010


Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais.
Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna
que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável.
Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar.
Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta,
era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma,
e sem sequer precisar me procurar.

A Paixão Segundo GH - Clarice Lispector

domingo, 31 de outubro de 2010



Mudar é preciso!
Porque a vida pede movimento...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010



Os filmes nos trazem tantas surpresas...

Hoje vi um filme maravilhoso sobre a relação de duas irmãs e seus conflitos chamado "Em seu lugar", que me apresentou dois grandes escritos da literatura americana. Sim, eu confesso, não os conhecia... isso faz de mim uma ignorante? Talvez... mas sempre é tempo de descobrir, de desvendar, e os filmes são excelentes para isso, também!
Vou então postar os dois poemas que me levaram às lágrimas nesta manhã de segunda-feira cinzenta...


A Arte de Perder - Elizabeth Bishop

A arte de perder não é difícil de dominar

Tantas coisas parecem cheias da intenção de

serem perdidas
Que sua perda não é um desastre.

Perca alguma coisa todos os dias
Aceite o contra-tempo de perder as chaves da porta
A hora gasta inútilmente.
A arte de perder não é difícil de dominar.

Depois, pratique perder mais, perder mais rápido
Lugares, nomes, situações....tantas coisas

Eu perdi duas cidades, dois rios, um continente
Eu os perdi, mas não foi um desastre.
Até mesmo perder você (a voz brincalhona, aquele gesto que eu adoro), não muda nada.

É evidente que arte de perder não é difícil de dominar
Embora pareça,

Embora possa parecer (escreva!) um desastre.

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Eu carrego você comigo - E. E. Cummings

Carrego seu coração comigo
Eu carrego no meu coração
Nunca estou sem ele.

Onde quer que vá, você vai comigo
E o que quer que faça,
Eu faço por você.

Não temo meu destino
Você é meu destino, meu doce.
Eu não quero o mundo, por mais belo que seja.

Você é meu mundo, minha verdade.
Eis o grande segredo que ninguém sabe.

Aqui está a raiz da raiz
O broto do broto e o céu do céu
De uma árvore chamada VIDA.
Que cresce mais que a alma pode esperar ou a mente pode esconder.
E esse é o mistério que mantém a distância entre as estrelas.

Eu carrego seu coração comigo,
Eu o carrego no meu coração.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Problemas têm família...



No fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto,
A partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela - silêncio perpétuo, extinto por lei todo o remorso.
Maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais.
Mas problemas não se resolvem...
Problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear...
O Problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas.

Leminski

domingo, 13 de junho de 2010



Clarice me traduz...

Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver (...)
Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige.
Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.

...

À duração da minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa.
Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.

quarta-feira, 2 de junho de 2010


Não sou comum...

Estava olhando uns Orkuts por aí e vi tanta gente que cresceu comigo, hoje com filhos, família constituída, emprego estável, dirigindo seus carros, levando os filhos ao colégio, ou seja, com tudo aquilo que se pode falar de uma vida de adulto.

É tão estranho ver que muitos deles e delas mudaram e outros continuam iguaizinhos... só que com filhos... coisa estranha essa. Adultos que conheci criança ou adolescente e agora, adultos... pais e mães de crianças.

Falo isso porque sempre que observo um adulto, principalmente aqueles sérios, absortos no trabalho, fico imaginando ele (ela) criança. Será que já eram sérios assim, será que retinham os brinquedos só pra si, será que se lambuzavam de sorvete, que brigavam na rua, será que eram excluídos e por isso hoje excluem?! Sei lá... é louco, eu sei, mas adoro imaginar essas coisas. Daí me lembro da música do Arnaldo Antunes que fala sobre isso e que tem um título fantástico “Saiba”. Acho que justamente pra lembrar aos adultos de que eles um dia foram crianças, e só tornaram-se adultos; não nasceram nessa condição. A música pra mim, diz que a vida é importante demais pra ser levada a sério, é uma grande brincadeira! Ele fala: “Saiba: Todo mundo teve infância, Maomé já foi criança. Arquimedes, Buda, Galileu e também você e eu”. É muito bacana e isso me faz pensar no quanto negligenciamos a infância, sendo que ela é a parte mais importante de quem fomos e “quem” nos constituiu para hoje sermos o que somos, bons ou maus, solidários ou egoístas, sozinhos ou cheios de amigos e por aí vai...

Mas esse é um tema pra ou outro post, hoje quero falar sim da minha infância e adolescência, muito mais pelos que estiveram comigo e hoje – muitos deles – são como completos estranhos, e muito também pra dizer o quanto me sinto diferente deles, nem melhor nem pior, só diferente. E vou falar: eu gosto dessa diferença.

Na verdade acho que não cresci não... hoje estava me apercebendo disso. Eu sou adulta porque a vida me obrigou a ser. Tenho trabalho, responsabilidades, contas pra pagar, gente pra cuidar, mas a minha criança permanece comigo o tempo todo. Senão vejamos, adoro comer porcarias, não gosto de frutas e verduras, jogo videogame, adoro estar cercada de amigos, mas às vezes quero ficar só, adoro brincar, fazer rir, sorrir, caminhar na praia, ir às festas, adoro andar descalço, não ligo muito para as convenções, prefiro arte a números, choro com e sem razão, sou desastrada, gosto de guitarra, de música no último volume, de desenho animado, não gosto de gente séria demais, amo desenhar e pintar, andar de patins e bicicleta, assistir ao pôr do sol, caminhar na rua e muitas outras coisas que não ouso mencionar...

Acho que sou como os artistas, que declaram ter a alma livre; sou como as pessoas atemporais, que se recusam a crescer, a serem iguais, no sentido de terem uma vida dentro do padrão: crescer, passar no vestibular, fazer faculdade, começar a trabalhar, namorar, casar, ter filhos, comprar bens, endurecer, ficar mais pesado, ter muitas responsabilidades e reuniões, não ter tempo pra família, trabalhar, trabalhar, juntar coisas, ver os filhos crescerem e finalmente, morrer... e lá se foi uma vida...

Não sou assim, me nego a sê-lo...

Quero calçar tênis enquanto puder, usar roupas leves e floridas, quero renovar meus sonhos, todos os dias... Tirar um dia de folga no meio da semana pra ir à praia, tomar um sorvete, ir ao cinema, ou simplesmente, não fazer nada... quero brincar de viver como disse Guilherme Arantes e docemente Bethânia cantou.

Quero continuar desenhando, escrevendo, fotografando (me maravilhando com as cores da vida) enfim, não me conformando com o que foi destinado a mim e a tantas outras mulheres como “A” possibilidade de felicidade: casar, trabalhar e ter filhos (não necessariamente nessa ordem).

Quero deixar outro legado pela minha passagem neste planeta, quero poder ser lembrada por outras realizações, tal qual Clarice Lispector que, apesar de ter seguido o que se destinou a ela, ficou imortalizada pela sua inquietude enquanto mulher e ser humano. Ou como Cora Coralina que viveu um casamento tradicional e só aos 75 anos de idade tirou da gaveta seus escritos e publicou seu primeiro livro. E ela ainda se achava mais doceira do que escritora...

Sei lá o que eu vou deixar pra humanidade, mas certamente não será o que muitos deixam. Eu, definitivamente, saí da calçada dos tijolos amarelos... Peguei um atalho. Onde ele me levará ? Não faço ideia... mas vou até o fim!

E termino referenciando Cora, dizendo que não sei se a minha vida vai ser curta ou longa demais, só quero “que ela seja intensa, verdadeira... pura, enquanto durar.”

Não quero deixar nada pela metade. Quero ser inteira, mas do meu jeito!

É isso...

terça-feira, 18 de maio de 2010


As coisas que aprendi com as crianças


Confiança é um ato de fé, primeiro em você, depois no outro.

A verdade, não é uma palavra, mas uma ação viva, presente!

A alegria é o néctar de tudo na vida!

A capacidade de se refazer, pelas próprias mãos: cair, limpar o joelho e recomeçar a brincadeira...

A capacidade de ver com os olhos da alma...

A amizade e lealdade de um menino com o outro é função da vida: ser leal sempre!!!

Descer uma ladeira correndo e gritando, sem pudor ou medo do que vai encontrar pela frente.

Quebrar em pedacinhos o que queremos descobrir, desvendar, só pra saber como funciona; ou simplesmente, sumir com o que nos incomoda.

Transformar os caquinhos do vaso da sala que acabamos de quebrar num lindo peixe de mosaíco, num novo radinho, um novo carrinho, uma nova boneca...e sair por aí mostrando e gritando"pai, olha o que eu fiz...”

Valorizar cada ato, cada gesto e cada criação como se fosse a coisa mais importante do mundo...

Abraçar todas as vezes que sentir vontade sem medo de não ser correspondido... abraçar o mundo inteiro com toda a intensidade e vontade que se é capaz...

Rodopiar, dar um gingado e passar uma rasteira no problema ou na dor, ou no medo...

Ganhar a brincadeira e fazer disso uma comemoração digna de final da copa, quando o nosso time ganha, claro!

Espalhar no colorido da vida tudo que sentimos...

Escrever nossa história nas páginas de um caderno imaginário, só nosso...

Sentir o beijo do vento no rosto, tal qual ele beija uma palmeira e ela se balança pra agradecer.

Fazer careta pras coisas que não gostamos...

Ser ingênuo, a ponto de acreditar que não vamos crescer nunca... ou que isso vai acontecer só quando cansar de brincar...

Fazer do conhecimento uma grande aventura...

Se alimentar de sonhos e de luz...

Acreditar em tudo que não somos capazes de ver...

Aprender brincando...

Ter muitos amigos...

Superar as limitações com coragem...

Sorrir ... sempre...

Celebrar a vida... sempre...

Amar a vida, sempre... a cada instante...

Esperar a próxima brincadeira...

Ver a estrada e pensar que se tivéssemos uma tesoura gigante poderíamos cortá-la e assim encurtar a viagem...

Se enfeitar com as cores mais vibrantes, porque é assim que tem que ser...

Pensar em Deus como aquele menino que tá escrevendo uma história e colando as imagens que gostaria... e dando vida a tudo...

Olhar pro céu e ficar sem entender porque que as estrelas não caem de lá. E mesmo assim, sem entender, achar lindo os seus jogos de luzes...

Pensar que quando um barco chega lá na linha final do mar (aquela que a gente consegue avistar), ele vai cair...

Ser feliz sem motivo... ou com motivos...

Desenhar, desenhar e desenhar...

Imaginar, imaginar e imaginar...